Crédito para empresas com problemas financeiros ou juridicos

Selic Alta – Oportunidades no mundo distressed

Uma vez, na faculdade de economia, um professor comentou que “Selic Alta deixa tudo mais difícil”. A explicação dele foi simples, mas não me deixou esquecer nunca mais o efeito pernicioso dos juros elevados na economia.

O noticiário costuma dizer que a alta nos juros torna os empréstimos mais caros e, por consequência, reduz os investimentos. Quem dera fosse só isso. Meu professor naquele dia me explicou que mesmo quem não precisa de um centavo de empréstimo é duramente afetado. 

A lógica é a seguinte: se você tem R$ 100 mil no banco e está ganhando apenas R$ 5 mil por ano de juros, provavelmente vai buscar formas de rentabilizar melhor esse dinheiro, abrindo um negócio ou fomentando o mercado de capitais. 

Porém, quando o mesmo capital rende R$ 15 mil sem esforço ou risco, a chance de você tirar ele de lá para pô-lo em risco é bem menor.

O mesmo se aplica a empresários que não dispõem desse dinheiro no banco mas já têm seu próprio negócio. 

Em tempos de Selic baixa, não passa muito pela cabeça deles a possibilidade de se livrar do negócio, vendendo a própria empresa ou o patrimônio dela, pra aplicar no banco e viver de renda. 

Já com juros altos (que, não raro, vêm acompanhados de um ambiente econômico mais desafiador), é totalmente compreensível a decisão de jogar a toalha e botar tudo que você tem pra trabalhar por você.

E se engana quem acha que esse cenário é ruim só pros empresários. Menos investimento significa menos empregos, menos empregos significa menos renda, menores salários, além de menos arrecadação e mais custos de rolagem da dívida para o governo, que poderá, portanto, devolver à sociedade ainda menos em serviços e investimentos públicos.

Um ciclo vicioso que só não é pior do que aquilo que os juros altos buscam conter: o aumento desenfreado da inflação, que corrói o valor da moeda (e, por consequência, o valor de todos os ativos de uma economia).

Porém, depois de trabalhar com Investment Banking, ouso dizer que meu professor estava errado. Não, não é tudo que fica mais difícil em um ambiente como esse. 

Cenário favorável para empresas que passam por problemas financeiros

No meio desse ambiente adverso que alguns negócios se tornam viáveis, tanto para investidores quanto para empresários. 

Você deve estar imaginando que “para uma boa empresa, não tem tempo ruim”. É verdade, empresas com governança e muito saudáveis financeiramente conseguem captar fácil (e mais caro, óbvio) mesmo nesses momentos. Mas não é desse tipo de empresa que me refiro. Na verdade, estou falando do extremo oposto: das empresas estressadas. 

Empresas ou ativos estressados são aqueles que passam por problemas extremamente sérios do ponto de vista financeiro e/ou jurídico. Podem ser desde uma empresa em Recuperação Judicial ou à beira da falência, até um imóvel objeto de inventário complexo e com embaraços jurídicos. 

E por que negócios envolvendo esses ativos, justamente esses, são mais fáceis em ambientes como esse em que estamos? 

Vou explicar pela lógica da empresa e do investidor.

Pela lógica da empresa é um pouco mais óbvio: em momentos difíceis, ou com juros mais altos, muitas empresas vêem suas receitas caírem e suas dívidas aumentarem, em tamanho e em custo. Os bancos somem, os credores apertam o cerco na cobrança das dívidas e, muitas vezes, a recuperação judicial é tudo que a empresa tem para se salvar. A questão é: quem vai querer financiar esse plano de recuperação? No mercado financeiro tradicional, esse cara não existe. Simples assim.

Já para entender a lógica do investidor, primeiro precisamos conhecer os tipos de investidores em termos do nível de risco que eles preferem correr. Existem basicamente três famílias de nível de risco: 

  • High grade
  • High yield 
  • Distressed

High grade é o nível de risco mais baixo. São os investidores com o perfil mais defensivo de todos, que preferem ganhar menos nas suas transações para investir apenas em situações e empresas seguras e conhecidas.

High yield são os investidores que ainda estão preponderantemente defensivos, com foco na proteção do seu patrimônio. Mas, já toleram níveis de risco maiores, investindo em setores mais desafiadores, empresas menores e/ou estratégias mais criativas.

Distressed são aqueles que podemos chamar de ofensivos dentro do mundo do crédito e das operações estruturadas. 

São um grupo extremamente seleto de investidores hiper especializados em determinadas estratégias, com times de analistas e advogados de ponta e que colocam seu patrimônio em risco para salvar ativos e empresas – cobrando muito bem por isso, diga-se de passagem. 

Como são muito mais caros que os anteriores, costumam não apenas colocar dinheiro, mas também o intelecto do seu time e sua rede de relacionamento para agregar sinergias e transformar os ativos em que investem.

Agora imagine o seguinte: quem você acha que está mais preparado para precificar ativos e investir em cenários difíceis? Os investidores high grade, por exemplo, ou os distressed? 

Logicamente esses últimos, uma vez que sua análise de risco, crédito e advogados estão há anos descascando muito pepino por aí.

Portanto, 2023 é um ano com muitos desafios, não há dúvida, mas com excepcionais oportunidades no mundo distressed. 

Empresas com dificuldade, em RJ, mas com empresários decididos e com ativos valiosos furam vaga na fila. Se a empresa faturar mais de R$ 100 milhões e tiver balanço auditado, aí a coisa vira um sonho.

Existem quase 40 investidores distressed no mercado brasileiro com os bolsos cheios de dinheiro para transformar a vida dos empresários. Quem vai chegar primeiro e beber água limpa?

Autor

Bruno Vieira

Bruno Vieira

Head de DCM (Debt Capital Markets) da Stark, economista pela UFSC, tem mais de 14 anos de experiência no mercado de crédito. Fundou, em 2015, uma boutique de operações estruturadas que posteriormente se fundiu à Stark para formar o primeiro Investment Banking Digital do Brasil.

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